Os Vinte e Quatro Gurus do Avadhuta: A História de um Iluminado
Sri Krishna Bhagavan
Excertos dos capítulos de 7 a 9 do canto 11 do Srimad-Bhagavatam
Um grande rei da Índia
antiga se encontra com uma personalidade iluminada, que lhe conta sua
história de iluminação através da observação atenta de tudo ao seu
redor.
Em geral, os seres humanos que conseguem analisar com perícia a
verdadeira situação do mundo material são capazes de se elevar acima da
vida inauspiciosa decorrente do grosseiro gozo material. A pessoa
inteligente, hábil em perceber o mundo ao redor de si e em aplicar
lógica sadia, pode lograr verdadeiro benefício através de sua própria
inteligência. Dessa forma, às vezes, a pessoa age como seu próprio
mestre espiritual instrutor. Na forma de vida humana, aqueles que são
autocontrolados e peritos na ciência espiritual de
sankhya podem
ver-Me diretamente, junto com todas as Minhas potências. Neste mundo, há
muitas classes de corpos criados — alguns com uma perna, outros com
duas, três, quatro ou mais pernas, e ainda outros sem pernas — mas de
todos esses, a forma humana é realmente querida para Mim. Embora Eu, o
Senhor Supremo, jamais possa ser capturado pela percepção sensorial
ordinária, aqueles que se encontram na forma humana podem usar sua
inteligência e outras faculdades de percepção para Me buscarem
diretamente através dos sintomas tanto aparentes quanto os verificados
indiretamente. A este respeito, os sábios relatam uma narração histórica
sobre a conversa entre o poderosíssimo rei Yadu e um
avadhuta. Maharaja Yadu certa vez observou um
brahmana avadhuta,
que parecia muito jovem e culto, vagando destemidamente. Sendo muito
versado na ciência espiritual, o rei aproveitou a oportunidade e
dirigiu-lhe as seguintes palavras.
Sri Yadu disse: “Ó
brahmana, vejo que não te ocupas em nenhuma
atividade religiosa prática, não obstante adquiriste uma compreensão
muito profunda acerca de todas as coisas e de todas as pessoas dentro
deste mundo. Dize-me, por favor, como desenvolveste essa inteligência
extraordinária, e por que viajas ao léu pelo mundo inteiro
comportando-te tal qual uma criança. Os seres humanos em geral trabalham
arduamente para cultivar religiosidade, desenvolvimento econômico,
gozo dos sentidos e também conhecimento acerca da alma, e sua motivação
costumeira vem a ser o aumento da duração de vida, a aquisição de fama e
o desfrute de opulência material. Tu, porém, embora capaz, culto,
hábil, belo e muito eloquente, não te ocupas em fazer nada, nem desejas
algo, senão que pareces estupefato e enlouquecido como se fosses uma
criatura possuída por um fantasma. Embora todas as pessoas dentro do
mundo material estejam ardendo no grande incêndio da floresta da
luxúria e da cobiça, tu permaneces livre e não te queimas com este
fogo. És como um elefante que se abriga do incêndio na floresta ficando
dentro da água do rio Ganges. Ó
brahmana, vemos que estás
desprovido de todo contato com o desfrute material e que estás viajando
só, sem companheiros nem membros familiares. Portanto, porque estamos
indagando sinceramente de ti, por favor, dize-nos a causa do grande
êxtase que estás sentindo em teu íntimo”.
O inteligente rei Yadu, sempre respeitoso para com os
brahmanas, esperou, com a cabeça curvada, enquanto o
brahmana, satisfeito com a atitude do rei, passou a responder.
O
brahmana disse: “Meu querido rei, com minha inteligência
refugiei-me em muitos mestres espirituais. Tendo obtido deles a
compreensão transcendental, agora perambulo pela Terra numa condição
liberta. Por favor, ouve enquanto os descrevo a ti. Ó rei, refugiei-me
em vinte e quatro
gurus, que são os seguintes: a Terra, o vento, o
céu, a água, o fogo, a Lua, o Sol, o pombo e o píton; o oceano, a
mariposa, a abelha, o elefante e o ladrão de mel; o veado, o peixe, a
prostituta Pingala, o falcão e a criança; e a moça, o fabricante de
flechas, a serpente, a aranha e a vespa. Meu querido rei, estudando suas
atividades aprendi a ciência do eu. Por favor, ouve, ó filho de
Maharaja Yayati, ó tigre entre os homens, enquanto te explico o que
aprendi de cada um desses
gurus”.
A Terra, o Vento e o Céu
“Uma pessoa sóbria, mesmo quando incomodada por outros seres vivos,
deve compreender que seus agressores estão agindo inevitavelmente sob o
controle de Deus, logo ela nunca deve se desviar do progresso em seu
próprio caminho. Esta regra eu aprendi da Terra. A pessoa santa deve
aprender da montanha a devotar todos os seus esforços a serviço dos
outros e a fazer do bem-estar alheio a única razão de sua existência. Da
mesma forma, como discípulo da árvore, deve aprender a dedicar-se aos
outros. O sábio erudito deve obter satisfação da simples manutenção de
sua existência e não deve procurar satisfação através do prazer dos
sentidos materiais. Em outras palavras, a pessoa deve cuidar do corpo
material de modo tal que seu conhecimento superior não se destrua e que
sua fala e sua mente não se desviem da autorrealização”.

“Mesmo um transcendentalista está rodeado de inúmeros objetos
materiais, que possuem boas e más qualidades. Porém, aquele que
transcendeu o bem e o mal materiais não deve enredar-se, mesmo ao estar
em contato com os objetos materiais; deve, antes, agir como o vento.
Embora possa viver neste mundo em diversos corpos materiais,
experimentando suas várias qualidades e funções, a alma autorrealizada
nunca se enreda, assim como o vento que transporta diferentes aromas de
fato não se mistura com eles”.

“Um sábio ponderado, mesmo enquanto vive dentro de um corpo material,
deve se ver como alma espiritual pura. Da mesma maneira, deve-se
observar que a alma espiritual entra dentro de todas as formas de vida,
tanto móveis quanto inertes, e que as almas individuais, portanto, são
onipresentes. O sábio deve observar ainda que a Suprema Personalidade de
Deus, como a Superalma, está simultaneamente presente dentro de todas
as coisas. A alma individual e a Superalma podem ser compreendidas se as
compararmos à natureza do céu: Embora o céu se estenda por toda a
parte e tudo repouse dentro do céu, este não se mistura com nada, nem
pode ser dividido por algo. Embora o vento poderoso sopre nuvens e
tempestades através do céu, este jamais se deixa envolver ou afetar por
tais atividades. De forma semelhante, a alma espiritual não é alterada
nem afetada mediante o contato com a natureza material. Embora a
entidade viva entre num corpo constituído de terra, água e fogo, e
embora seja impelida pelos três modos da natureza criados pelo tempo
eterno, sua natureza espiritual eterna jamais é afetada realmente”.
A Água e o Fogo
“Ó rei, a pessoa santa é tal qual a água, pois está livre de toda a
contaminação, é gentil por natureza, e ao falar cria uma bela vibração
como a da água fluente. Mediante o simples fato de ver, tocar ou ouvir
semelhante pessoa santa, a entidade viva se purifica, assim como alguém
fica limpo através do contato com a água pura. Logo, a pessoa santa, tal
qual um lugar sagrado, purifica todos os que entram em contato com ela,
pois sempre canta as glórias do Senhor”.

“As pessoas santas se tornam poderosas através da execução de
austeridades. Sua consciência é inabalável porque não tentam desfrutar
de nada dentro do mundo material. Tais sábios naturalmente libertos
aceitam alimentos que lhes são oferecidos pelo destino, e, se por acaso
comem algum alimento contaminado, eles não são afetados, assim como o
fogo, que queima as substâncias contaminadas que lhe são oferecidas. Uma
pessoa santa, tal qual o fogo, algumas vezes aparece numa forma oculta e
outras vezes, de forma patente. Para o bem-estar das almas
condicionadas que desejam verdadeira felicidade, a pessoa santa pode
aceitar a posição de mestre espiritual adorável e, assim como o fogo,
ela reduz a cinzas todas as reações pecaminosas passadas e futuras
daqueles que a adoram, mediante a misericordiosa aceitação de suas
oferendas. Assim como o fogo se manifesta de diferentes maneiras em
pedaços de lenha de diferentes tamanhos e qualidades, a onipotente Alma
Suprema, tendo entrado nos corpos de formas de vida superiores e
inferiores criados por Sua própria potência, parece assumir a identidade
de cada uma delas”.
A Lua e o Sol
“Todas as diversas fases da vida material, a começar com o nascimento
e culminando na morte, são propriedades do corpo e não afetam a alma,
assim como o aparente crescimento e diminuição da Lua não afetam a Lua
em si. Semelhantes mudanças são impostas pelos imperceptíveis
movimentos do tempo. As chamas do fogo aparecem e desaparecem a cada
momento, ainda assim o observador ordinário não percebe esta criação e
destruição. De modo semelhante, as poderosas ondas do tempo fluem sem
cessar, tais quais as poderosas torrentes de um rio, e
imperceptivelmente causam o nascimento, crescimento e morte de inúmeros
corpos materiais. A alma, contudo, que é assim sempre forçada a mudar
sua posição, não consegue perceber as ações do tempo”.

“Assim como o Sol evapora grandes quantidades de água mediante seus
raios potentes e depois devolve a água à Terra sob a forma de chuva, a
pessoa santa aceita todas as classes de objetos materiais com seus
sentidos materiais e, no momento oportuno, quando alguém adequado se
aproxima dela para pedi-los, devolve semelhantes objetos materiais.
Logo, tanto ao aceitar quanto ao abandonar os objetos dos sentidos, ela
não se enreda. Mesmo quando se reflete em diversos objetos, o Sol jamais
se divide, nem se funde em seu reflexo. Só pessoas com cérebros obtusos
é que fariam considerações dessa espécie a respeito do Sol. Da mesma
forma, embora se reflita através de diferentes corpos materiais, a alma
permanece indivisa e imaterial”.
O Pombo Tolo
“Ninguém jamais deve se entregar a afeição ou preocupação excessivas por alguém ou algo”, continuou o
avadhuta,
“pois, caso o faça, a pessoa terá de experimentar enorme sofrimento,
assim como o pombo tolo. Era uma vez um pombo que morava na floresta com
sua esposa. Ele fez um ninho numa árvore e morou lá por vários anos com
sua companheira. Os dois pombos eram muito devotados a seus deveres
familiares. Seus corações estavam amarrados pela afeição sentimental, e
eles tinham atração pelos olhares, aspectos corpóreos e estados de
espírito um do outro. Dessa maneira, eles se ataram um ao outro pela
afeição. Ingenuamente confiando no futuro, eles, tal qual um casal
amoroso entre as árvores da floresta, executavam seus atos de descansar,
sentar-se, andar, ficar de pé, conversar, brincar, comer e assim por
diante. Sempre que desejava alguma coisa, ó rei, a pomba lisonjeiramente
seduzia seu marido e ele por sua vez a satisfazia com muita fidelidade
fazendo tudo o que ela queria, mesmo à custa de grande dificuldade
pessoal”.
“Desse modo, ele não podia controlar os sentidos na sua companhia.
Então, a pomba ficou grávida pela primeira vez. Ao chegar a ocasião, a
casta senhora, na presença de seu marido, botou alguns ovos dentro do
ninho. Ao chegar a hora, filhotes de pombo, com tenros membros e penas
criados pelas inconcebíveis potências do Senhor, nasceram daqueles ovos.
O casal de pombos ficou muito afeiçoado a seus filhotes e sentia enorme
prazer ao ouvir-lhes o pio desajeitado, que soava muito agradável aos
pais. Dessa forma, com amor passaram a criar as avezinhas que tinham
nascido deles. Os pais ficavam muito jubilosos observando as asas suaves
de seus filhotes, seus pipilos, seus graciosos movimentos inocentes ao
redor do ninho e suas tentativas de pular para cima e voar. Vendo os
filhos felizes, os pais também ficavam felizes. Com seus corações atados
um ao outro pela afeição, os tolos pássaros, completamente confundidos
pela energia ilusória do Senhor Vishnu, continuaram a cuidar de sua
jovem prole que nascera deles”.
“Certa vez, os dois cabeças da família saíram para buscar alimento
para os filhos. Estando muito ansiosos por alimentar bem sua prole,
vaguearam muito tempo por toda a floresta. Neste momento, aconteceu que
um certo caçador estava vagando pela floresta e viu os pombinhos se
movendo perto do ninho. Abrindo a rede, ele capturou todos. O pombo e
sua esposa estavam sempre ansiosos pela manutenção de seus filhos e
estavam vagando pela floresta com este propósito. Tendo obtido alimento
apropriado, eles então voltaram ao ninho”.
“Ao ver os próprios filhos presos na rede do caçador, a senhora pomba
ficou dominada pela angústia e, gritando, correu em direção a eles
enquanto estes gritavam para ela em resposta. A senhora pomba sempre se
permitira atar pelas cordas da intensa afeição material, e assim sua
mente ficou dominada pela angústia. Estando nas garras da energia
ilusória do Senhor, ela se esqueceu completamente de si e, correndo para
seus desamparados filhos, ficou imediatamente presa na rede do caçador.
Vendo seus filhos, que lhe eram mais queridos que a própria vida,
fatalmente presos na rede do caçador com sua esposa, que ele
considerava igual a si mesmo em todo os aspectos, o desafortunado pombo
começou a lamentar-se desditosamente”.
“O pombo disse: ‘Ai de mim, vede só como agora estou destruído. Sou
decerto um grande tolo, pois não executei convenientemente as atividades
piedosas, não pude me satisfazer, nem pude cumprir o proposito da vida.
Minha querida família, que era a base de minha religiosidade,
desenvolvimento econômico e gozo dos sentidos, está agora arruinada e
sem nenhuma esperança. Minha esposa e eu éramos um casal ideal. Ela
sempre me obedecia fielmente e de fato me aceitava como sua deidade
adorável. Agora, vendo seus filhos condenados e seu lar vazio, ela me
deixou para trás e foi para o céu com nossos santos filhos. Agora, sou
uma pessoa desgraçada, vivendo em um lar vazio. Minha esposa está morta;
meus filhos estão mortos. Por que devo querer viver? Meu coração está
tão aflito em consequência da separação de minha família que a própria
vida se tornou simplesmente um sofrimento’”.
“O pombo viu seus desventurados filhos presos na rede e à beira da
morte. Vendo-os lutar pateticamente para se libertar, sua mente ficou
vazia, e assim, enquanto olhava desditosamente para eles, ele próprio
caiu na rede do caçador. O caçador cruel, tendo satisfeito seu desejo de
capturar o pombo, a pomba e todos os seus filhotes, partiu para a casa.
Desse modo, quem é muito apegado à vida familiar fica com o coração
perturbado. Tal qual o pombo, ele tenta encontrar prazer na atração
sexual mundana. Muito ocupado em manter sua própria família, a pessoa
avarenta está destinada a sofrer extremamente, junto com todos os
membros de sua família. As portas da libertação estão inteiramente
abertas para quem alcançou a vida humana. Porém, se um ser humano apenas
se dedica à vida familiar tal qual o tolo pássaro dessa história, ele
deve então ser considerado como alguém que subiu a um lugar alto só para
tropeçar e cair”.
O Píton e o Oceano
O santo
brahmana disse: “Ó rei, a entidade viva corporificada
automaticamente experimenta infelicidade no céu ou no inferno. Da mesma
forma, a felicidade também será experimentada mesmo sem ser procurada.
Portanto, a pessoa de discriminação inteligente não faz esforço algum
para obter felicidade material. Seguindo o exemplo do píton, deve-se
renunciar aos esforços materiais e aceitar para a manutenção o alimento
que vem espontaneamente, seja este alimento delicioso ou insípido,
abundante ou escasso. Se em alguma ocasião o alimento não vem, a pessoa
santa deve, então, jejuar por muitos dias sem fazer esforço algum para
mudar essa situação. Ela deve compreender que tem de jejuar devido ao
arranjo de Deus. Logo, seguindo o exemplo do píton, deve permanecer
tranquila e paciente. A pessoa santa deve permanecer tranquila e
materialmente inativa, mantendo o corpo sem muito esforço. Embora
possua pleno vigor sensual, mental e físico, ela não deve se tornar
ativa para lograr ganho material; ao contrário, deve ficar sempre alerta
para seu verdadeiro interesse pessoal”.

“Um sábio santo é feliz e agradável em seu comportamento externo,
enquanto, internamente, é muito grave e pensativo. Porque seu
conhecimento é imensurável e ilimitado, ele jamais se perturba; desse
modo, em todos os aspectos, ele é como as águas tranquilas do
insondável e insuperável oceano. Durante a estação das chuvas, os rios
caudalosos arrojam-se para o oceano, e, durante a estiagem do verão, os
rios, então rasos, reduzem severamente seu suprimento de água. O
oceano, todavia, não se avoluma durante a época das chuvas, nem se
resseca no cálido verão. Da mesma maneira, um devoto santo, que aceitou a
Suprema Personalidade de Deus como a meta de sua vida, algumas vezes
receberá da providência grande opulência material, e outras, se
encontrará materialmente pobre. Porém, semelhante devoto do Senhor não
se rejubila na condição de prosperidade, nem fica aborrecido quando a
pobreza o atinge”.
A Mariposa e a Abelha
“Quem não conseguiu controlar os sentidos, de imediato sente atração
ao ver uma forma feminina, que é criada pela energia ilusória do Senhor
Supremo. De fato, quando a mulher fala com palavras tentadoras, sorri
provocantemente e se movimenta com sensualidade, sua mente logo é
capturada, e assim ele cai como um cego nas trevas da existência
material, tal qual a mariposa enlouquecida pelo fogo precipita-se às
cegas para suas chamas. Um tolo sem discriminação inteligente logo fica
excitado ao ver uma mulher luxuriosa belamente adornada com enfeites de
ouro, roupas finas e cosméticos. Ávido por gozo dos sentidos, este tolo
perde toda a inteligência e é destruído tal qual a mariposa que se lança
ao fogo ardente”.

“A pessoa santa deve aceitar apenas o alimento suficiente para manter
o corpo e a alma juntos. Deve ir de porta em porta aceitando apenas um
pouco de alimento de cada família. Dessa maneira, deve praticar a
ocupação da abelha. Assim como a abelha tira néctar de todas as flores,
pequenas e grandes, um ser humano inteligente deve aceitar a essência de
todas as escrituras religiosas. Uma pessoa santa não deve pensar: ‘Este
alimento guardarei para comer à noite e este outro posso guardar para
amanhã’. Em outras palavras, ela não deve guardar alimentos recebidos
como esmola. Ao contrário, deve usar as mãos como prato e comer tudo o
que nelas couber. Seu único recipiente de armazenamento deve ser o
estômago, e tudo o que couber comodamente nele deve ser seu estoque de
comida. Logo, não se deve imitar a abelha gananciosa que recolhe com
avidez mais e mais mel. O mendicante santo nem mesmo deve esmolar
alimentos para comer mais tarde no mesmo dia ou no dia seguinte. Se ele
desprezar este preceito e, tal qual a abelha, esmolar mais e mais
alimentos saborosos, semelhantes donativos de fato o arruinarão”.
O Elefante e o Ladrão de Mel
“Uma pessoa santa jamais deve tocar uma moça. De fato, ele não deve
nem deixar que seu pé toque uma boneca de madeira com forma de mulher.
Mediante o contato corpóreo com uma mulher, ele com certeza será
capturado pela ilusão, assim como o elefante é capturado pela fêmea
devido ao desejo de tocar seu corpo. Um homem que possui discriminação
inteligente não deve, em nenhuma circunstância, tentar explorar a bela
forma de uma mulher para seu gozo dos sentidos. Assim como o elefante
que tenta desfrutar uma fêmea é morto por outros elefantes que também
desfrutam sua companhia, quem tenta desfrutar a companhia de uma mulher
pode ser morto a qualquer momento por seus outros amantes que são mais
fortes do que ele”.

“A pessoa gananciosa acumula enorme quantidade de dinheiro à custa de
grande luta e dor, mas quem tanto lutou para adquirir esta riqueza nem
sempre tem permissão de desfrutá-la pessoalmente ou dá-Ia em caridade
aos outros. O homem ganancioso é como a abelha que luta para produzir
enorme quantidade de mel, que então é roubado por um homem que o
desfrutará para si mesmo ou o venderá a outros. Não importa com quanto
cuidado alguém esconda sua riqueza ganha a duras penas ou quanto tente
protegê-la: existem aqueles que são peritos em descobrir o paradeiro de
coisas valiosas e vão roubá-las. Assim como um caçador leva embora o mel
laboriosamente produzido pelas abelhas, da mesma maneira, mendicantes
santos, tais como
brahmacharis e
sannyasis, têm direito de desfrutar a propriedade acumulada com esforço pelos pais de família dedicados ao deleite familiar”.
O Veado e o Peixe
“Uma pessoa santa que mora na floresta e se encontra na ordem de vida
renunciada jamais deve ouvir canções ou música que promovam o desfrute
material, senão que deve estudar cuidadosamente o exemplo do veado que
fica desnorteado com a doce música da corneta do caçador e assim é
capturado e morto. Deixando-se atrair por canções, dança e
entretenimento musical mundanos de belas mulheres, mesmo o grande sábio
Rishyashringa, filho de Mrigi, caiu como um tolo sob o controle delas,
tal qual um animal de estimação”.

“Assim como um peixe, incitado pelo desejo de satisfazer a língua, é
fatalmente preso no anzol do pescador, a pessoa tola se deixa confundir
pelas extremamente perturbadoras necessidades da língua e assim é
arruinada. Mediante o jejum, homens eruditos rapidamente controlam todos
os sentidos, exceto a língua, porque, através do fato de abster-se de
alimentos, esses homens são afligidos pelo desejo ainda maior de
satisfazer o paladar. Embora alguém possa dominar todos os outros
sentidos, enquanto a língua não for dominada, não se pode dizer que ele
controlou os sentidos. Porém, se alguém é capaz de controlar a língua,
então entende-se que ele tem pleno controle sobre todos os sentidos”.
A Prostituta Pingala

“Ó filho de reis, outrora, na cidade de Videha, morava uma
prostituta chamada Pingala. Agora, por favor, ouve o que aprendi
daquela senhora. Certa vez, aquela prostituta, com o desejo de levar um
amante para a sua casa, ficou à noite postada à porta mostrando sua
bela forma. Ó melhor dentre os homens, essa prostituta estava muito
ansiosa para ganhar dinheiro e, enquanto ficava de pé à noite na rua,
examinava todos os homens que passavam, pensando: ‘Oh! Este na certa
tem dinheiro. Sei que pode pagar o preço e tenho certeza de que
apreciaria muito minha companhia’. Assim ela pensava acerca de todos os
homens na rua. Enquanto a prostituta Pingala permanecia à porta, muitos
homens vieram e se foram, passando junto à sua casa. Seu único meio de
vida era sua casa de prostituição, e, por isso, ela, cheia de ansiedade,
pensava: ‘Talvez este que vem vindo agora seja muito rico… Oh! Ele não
vai parar, mas tenho certeza de que algum outro virá. Sem dúvida este
homem que vem agora vai querer pagar por meu amor e provavelmente me
dará muito dinheiro’. Desse modo, com esperança vã, ela permaneceu
encostada à porta, sem poder terminar seu negócio e ir dormir. Em
virtude da ansiedade, ela às vezes caminhava até a rua e às vezes
entrava em casa. Assim, aos poucos chegou a meia-noite”.
“À medida em que a noite passava, a prostituta, que tanto desejava
dinheiro, aos poucos ficou taciturna, e seu rosto murchou. Desse modo,
cheia de ansiedade por obter dinheiro e muito desapontada, começou a
sentir grande desapego de sua situação, e a felicidade surgiu em sua
mente. A prostituta sentiu nojo de sua situação material e assim se
tornou indiferente a ela. De fato, o desapego age como uma espada,
cortando em pedaços a aprisionante rede das esperanças e desejos
materiais. Agora, ouve de mim, por favor, a canção que a prostituta
cantou naquela situação. Ó rei, assim como um ser humano destituído de
conhecimento espiritual jamais deseja abandonar seu falso sentido de
propriedade sobre muitas coisas materiais, do mesmo modo, quem não
desenvolveu o desapego jamais deseja renunciar ao cativeiro do corpo
material”.
“A protistuta Pingala disse: ‘Vede só quão iludida estou. Porque não
sou capaz de controlar minha mente, tal qual uma tola desejo prazer
luxurioso do homem mais insignificante. Sou tão tola que abandonei o
serviço àquela pessoa que, estando eternamente situada em meu coração, é
de fato muito querida para mim. Esse ente muito querido é o Senhor do
Universo, que é o outorgador do amor e da felicidade verdadeiros e a
fonte de toda a prosperidade. Embora Ele esteja em meu próprio coração,
eu O negligenciei por completo. Em vez disso, por ignorância, servi
homens insignificantes que jamais puderam satisfazer meus verdadeiros
desejos e que me trouxeram apenas infelicidade, temor, ansiedade,
lamentação e ilusão. Oh! Como torturei inutilmente minha própria alma!
Vendi meu corpo a homens luxuriosos e cobiçosos que eram eles mesmos
dignos de pena. Desse modo, praticando a mais abominável profissão de
prostituta, esperava obter dinheiro e prazer sexual. Este corpo material
é como uma casa em que eu, a alma, estou vivendo. Os ossos que formam
minha espinha, costelas, braços e pernas são como as vigas, as traves e
os pilares da casa, e a estrutura completa, que está cheia de fezes e
urina, é coberta de pele, cabelo e unhas. As nove portas que conduzem a
este corpo estão sempre excretando substâncias asquerosas. Além de mim,
que mulher poderia ser tão tola a ponto de se devotar a este corpo
material, achando que poderia encontrar prazer e amor nesta máquina?’”.
“‘Decerto, nesta cidade de Videha, só eu sou completamente tola.
Negligenciei a Suprema Personalidade de Deus, que nos outorga tudo,
inclusive nossa forma espiritual original, e, em vez disso, desejei
desfrutar o gozo dos sentidos com muitos homens. A Suprema Personalidade
de Deus é absolutamente o mais querido para todos os seres vivos porque
é o Senhor e benquerente de todos. Ele é a Alma Suprema situada no
coração de todos. Portanto, agora pagarei o preço da rendição completa
e, dessa maneira, comprando o Senhor, desfrutarei com Ele tal qual
Lakshmidevi. Os homens fornecem gozo dos sentidos às mulheres, mas todos
esses homens, inclusive os semideuses do céu, têm um começo e um fim.
Eles todos são criações temporárias que serão arrastados pelo tempo.
Portanto, quanto prazer ou felicidade verdadeira pode qualquer um deles
dar a suas esposas?’”.
“‘Embora eu esperasse muito obstinadamente desfrutar o mundo
material, de uma maneira ou outra o desapego surgiu em meu coração, e
está me deixando muito feliz. Portanto, a Suprema Personalidade de Deus,
Vishnu, deve estar contente comigo. Sem nem mesmo sabê-lo, devo ter
executado alguma atividade que O satisfez. Alguém que desenvolveu o
desapego pode abandonar o cativeiro decorrente de sociedade, amizade e
amor materiais, e quem passa por grande sofrimento se torna pouco a
pouco, devido à desesperança, desapegado e indiferente ao mundo
material. Logo, em virtude de meu grande sofrimento, este desapego
despertou em meu coração; como poderia eu, todavia, ter passado por tão
misericordioso sofrimento se fosse de fato desafortunada? Portanto,
sou, na verdade, afortunada e recebi a misericórdia do Senhor. Ele, de
um modo ou de outro, deve estar satisfeito comigo. Com devoção, aceito o
grande benefício que o Senhor me prestou. Tendo abandonado meus desejos
pecaminosos de gozo dos sentidos, agora me refugio nEle, a Suprema
Personalidade de Deus’”.
“‘Agora estou completamente satisfeita e tenho plena fé na
misericórdia do Senhor. Portanto, vou me manter com qualquer coisa que
venha por sua própria conta. Desfrutarei a vida apenas com o Senhor,
porque Ele é a verdadeira fonte de amor e felicidade. As atividades
referentes ao gozo dos sentidos rouba a inteligência da entidade viva, e
por isso esta cai no poço escuro da existência material. Dentro desse
poço, ela é então agarrada pela serpente fatal do tempo. Quem, senão a
Suprema Personalidade de Deus, poderia salvar a pobre entidade viva de
tão desesperada condição? Ao ver que o Universo inteiro foi capturado
pela serpente do tempo, a entidade viva se torna sóbria e sã e, nesse
momento, desapega-se de todo o gozo dos sentidos materiais. Nesta
condição, a entidade viva está qualificada para ser seu próprio
protetor’”.
O
avadhuta disse: “Dessa maneira, completamente decidida,
Pingala cortou todos os seus desejos pecaminosos de desfrutar de prazer
sexual com amantes e situou-se em perfeita paz. Ela, então, sentou-se
em sua cama. O desejo material é, sem dúvida, a causa da mais profunda
infelicidade, e estar livre de semelhante desejo é a causa da maior
felicidade. Por isso, cortando de uma vez por todas seu desejo de
desfrutar com supostos amantes, Pingala foi dormir muito feliz”.
O Falcão e a Criança
O
brahmana santo disse: “Todos consideram determinadas coisas
no mundo material como muito queridas para si e, devido ao apego a esses
objetos, eles por fim se tornam infelizes. Quem compreende isto,
renuncia à posse e ao apego materiais e, destarte, aufere felicidade
ilimitada. Certa vez, um bando de falcões enormes que não conseguia
achar nenhuma presa atacou outro falcão mais fraco que tinha alguma
carne. Naquele momento, estando em perigo de vida, o falcão abandonou a
carne e experimentou verdadeira felicidade”.

“Na vida familiar, os pais estão sempre em ansiedade devido a seu
lar, filhos e reputação. Mas nada tenho a ver com estas coisas. Não me
preocupo em absoluto com família, nem me interesso por honra ou desonra.
Desfruto apenas a vida da alma e encontro o amor na plataforma
espiritual. Dessa maneira, vagueio pela terra como uma criança. Neste
mundo, duas classes de pessoas estão livres de toda a ansiedade e
imersos em grande satisfação: aquele que é um tolo retardado e infantil e
aquele que se aproximou do Senhor Supremo, que se encontra além dos
três modos da natureza material”.
A Moça e o Fabricante de Flechas

“Certa vez, uma moça em idade de casar estava a sós em casa, porque
àquele dia seus pais e parentes tinham ido a outro lugar. Nessa ocasião,
chegaram alguns homens à sua casa, desejando especificamente
desposá-la. Ela os recebeu com toda a hospitalidade. A moça foi a um
lugar reservado e começou a preparar algo que seus hóspedes inesperados
pudessem comer. Ao bater o arroz, os braceletes de conchas em seus
braços se chocavam e produziam enorme ruído. A moça temia que os homens
considerassem sua família pobre porque ela estava ocupada na tarefa
servil de debulhar o arroz. Sendo muito inteligente, a moça tímida
quebrou os braceletes de conchas, deixando apenas dois em cada pulso. Em
seguida, porque a moça prosseguia a debulhar o arroz, os dois
braceletes em cada pulso continuavam a se chocar e a produzir ruído, em
virtude do que ela tirou um bracelete de cada braço, e, com apenas um em
cada pulso, não havia mais barulho. Ó subjugador do inimigo, viajo por
toda a superfície da Terra aprendendo constantemente sobre a natureza
deste mundo e dessa maneira eu mesmo testemunhei esse caso e aprendi
daquela moça uma lição. Quando muitas pessoas vivem juntas no mesmo
lugar, indubitavelmente haverá desavenças ali. E mesmo que apenas duas
pessoas vivam juntas, haverá conversas frívolas e desacordos. Portanto,
para evitar conflitos, deve-se viver só, tal qual aprendemos do exemplo
do bracelete da moça. Depois de aperfeiçoar as posturas sentadas de
yoga e dominar o processo respiratório, deve-se estabilizar a mente através do desapego e da prática regulada de
yoga. Desse modo, com muita atenção, deve-se fixar a mente na meta única da prática de
yoga”.
“A mente pode ser controlada quando ela se fixa na Suprema
Personalidade de Deus. Após alcançar uma situação estável, a mente se
liberta do desejo contaminado de executar atividades materiais. Assim, à
medida que o modo da bondade se fortalece, pode-se abandonar de vez os
modos da paixão e da ignorância, e, aos poucos, transcende-se até o
modo material da bondade. Quando a mente se livra do combustível dos
modos da natureza, extingue-se o fogo da existência material. Então, a
pessoa alcança a plataforma transcendental da relação direta com o
objeto de sua meditação, o Senhor Supremo. Dessa maneira, quando a
consciência está completamente fixa na Verdade Absoluta, a Suprema
Personalidade de Deus, a pessoa não vê mais dualidade nem realidade
interna e externa. Dá-se o exemplo do fabricante de flechas que estava
tão absorto em fazer uma flecha aprumada que nem mesmo notou a presença
do próprio rei, que estava passando bem a seu lado”.
A Serpente, a Aranha e a Vespa
“A pessoa santa deve permanecer só e viajar constantemente sem
residência fixa. Sendo vigilante, deve permanecer isolada e deve agir de
modo que não seja reconhecida nem notada pelos outros. Andando sem
companheiros, ela não deve falar mais que o necessário. Quando alguém,
vivendo num corpo material temporário, tenta construir um lar feliz, o
resultado é infrutífero e miserável. A serpente, no entanto, entra num
lar construído por outros e leva uma vida próspera e feliz”.
“O Senhor do Universo, Narayana, é o Deus adorável de todas as
entidades vivas. Sem assistência alheia, o Senhor cria este Universo
mediante Sua própria potência e, na ocasião do aniquilamento, destrói o
Universo através de Sua expansão pessoal sob a forma do tempo e recolhe
todo o cosmos, incluindo todas as entidades vivas condicionadas, dentro
de Si mesmo. Logo, Seu Eu ilimitado é o refúgio e reservatório de todas
as potências. O sutil
pradhana, o alicerce de toda a manifestação
cósmica, é conservado dentro do Senhor e, desse modo, não é diferente
dEle. Depois do aniquilamento, o Senhor permanece só. Ao exibir Sua
própria potência sob a forma do tempo e guiar Suas potências materiais,
tais como o modo da bondade, para uma condição neutra de equilíbrio, a
Suprema Personalidade de Deus permanece o controlador supremo daquele
estado neutro, chamado
pradhana, bem como das entidades vivas.
Ele é também o supremo objeto de adoração para todos os seres,
incluindo as almas libertas, os semideuses e as almas condicionadas
ordinárias. O Senhor está eternamente livre de qualquer designação
material e constitui a totalidade da bem-aventurança espiritual
proveniente da percepção de Sua própria forma espiritual. O Senhor,
desse modo, exibe o significado mais completo da palavra ‘libertação’. Ó
subjugador dos inimigos, no momento da criação, a Personalidade de
Deus expande Sua própria potência transcendental sob a forma do tempo e,
agitando Sua energia material,
maya, que consiste nos três modos da natureza material, cria o
mahat-tattva.
Segundo eminentes sábios, aquilo que é o alicerce dos três modos da
natureza material e que manifesta o diversificado Universo chama-se
sutra ou
mahat-tattva. De fato, este Universo repousa dentro daquele
mahat-tattva,
e, devido a sua potência, a entidade viva tem de sujeitar-se à
existência material. Assim como de dentro de si mesma a aranha expande o
fio através de sua boca, brinca com ele por algum tempo e enfim o
engole, da mesma maneira, a Suprema Personalidade de Deus expande Sua
potência pessoal de dentro de Si mesmo. Desse modo, o Senhor exibe a
rede da manifestação cósmica, utiliza-a conforme Seu propósito e afinal
recolhe-a por completo para dentro de Si mesmo”.

“Se por amor, ódio ou temor uma alma corporificada fixar sua mente
com inteligência e completa concentração numa forma corpórea
específica, ela com certeza obterá aquela forma sobre a qual está
meditando. Ó rei, certa vez uma vespa forçou um inseto mais fraco a
entrar em sua colmeia e o manteve preso lá. Com muito medo, o inseto
mais fraco meditava constantemente em seu captor e, sem abandonar o
corpo, aos poucos alcançou o mesmo estado de existência da vespa. Desse
modo, a pessoa alcança um estado de existência de acordo com sua
concentração constante”.
O Corpo Humano e a Iluminação
“Ó rei, de todos estes mestres espirituais adquiri grande sabedoria.
Agora ouve, por favor, enquanto explico o que aprendi de meu próprio
corpo. O corpo material também é meu mestre espiritual porque me ensina
o desapego. Estando sujeito a criação e destruição, ele sempre chega a
um fim doloroso. Desse modo, embora use meu corpo para adquirir
conhecimento, sempre me lembro de que ele será afinal consumido por
outros, e, permanecendo desapegado, vagueio por este mundo. Um homem
apegado ao corpo acumula dinheiro com grande esforço para expandir e
proteger a posição de sua esposa, filhos, propriedade, animais
domésticos, criados, lares, parentes, amigos e assim por diante. Ele faz
tudo isso para o prazer do próprio corpo. Assim como a árvore antes de
morrer produz a semente de uma futura árvore, o corpo moribundo
manifesta a semente de seu próximo corpo material sob a forma de seu
karma acumulado.
Desse modo, assegurando a continuação da existência mundana, o corpo
material cai e morre. Um homem que tem muitas esposas vive molestado por
elas. Ele é responsável por mantê-las, logo todas as senhoras sempre o
arrastam para diferentes direções, enquanto cada uma luta por seu
interesse pessoal. De forma semelhante, os sentidos materiais afligem a
alma condicionada, arrastando-a ao mesmo tempo para muitas direções. De
um lado, a língua a arrasta para conseguir alimentos saborosos; então a
sede a arrasta para conseguir uma bebida conveniente. Ao mesmo tempo,
os órgãos sexuais clamam por satisfação, e o tato demanda objetos macios
e sensuais. O estômago aborrece a pessoa até estar farto, os ouvidos
exigem ouvir sons agradáveis, o olfato deseja aromas deliciosos, e os
olhos irrequietos clamam por visões encantadoras. Dessa maneira, os
sentidos, órgãos e membros, todos desejando satisfação, arrastam a
entidade viva para muitas direções”.
“A Suprema Personalidade de Deus, expandindo Sua própria potência,
maya-shakti,
criou inúmeras espécies de vida para alojar as almas condicionadas.
Contudo, após ter criado as formas de árvores, répteis, animais, aves,
serpentes, etc., o Senhor não estava satisfeito em Seu coração. Ele,
então, criou a vida humana, que oferece à alma condicionada inteligência
suficiente para perceber a Verdade Absoluta, e ficou satisfeito. Após
muitos e muitos nascimentos e mortes obtém-se a rara forma de vida
humana que, embora temporária proporciona à entidade viva a oportunidade
de atingir a perfeição máxima. Por isso, um ser humano sóbrio de
imediato deve esforçar-se pela perfeição última da vida e não cair no
ciclo de repetidos nascimentos e mortes. Afinal, o gozo dos sentidos é
disponível mesmo nas mais abomináveis espécies de vida, ao passo que a
consciência de Krishna só é possível para um ser humano”.
“Tendo aprendido esses ensinamentos de meus mestres espirituais,
permaneço situado na compreensão acerca da Suprema Personalidade de
Deus e, plenamente renunciado e iluminado pelo conhecimento espiritual
vivenciado, vagueio pela terra sem apego nem falso ego. Embora a Verdade
Absoluta seja única e inigualável, os sábios A descreveram de muitas
maneiras diferentes. Portanto, a pessoa talvez não seja capaz de
adquirir conhecimento muito firme ou completo de um só mestre
espiritual”.
Tendo assim falado ao rei Yadu, o sábio
brahmana aceitou
reverências e adoração do rei e sentiu-se interiormente satisfeito.
Então, dizendo adeus, partiu tal qual tinha vindo. Ó Uddhava, ouvindo as
palavras do
avadhuta, o santo rei Yadu, livrou-se de todo o
apego material, motivo pelo qual sua mente atingiu o equilíbrio na
plataforma espiritual.